5. INTERNACIONAL 24.4.13

CHAVISMO SEM AS MASSAS
A vitria eleitoral por margem irrisria faz de Nicols Maduro um governante frgil e dependente dos militares para se manter no poder.
NATHALIA WATKINS

     As charlatanices eleitorais nunca foram to determinantes na Venezuela como na votao de domingo 14. Ao longo da campanha e no dia do pleito, o ex-sindicalista e motorista de nibus Nicols Maduro utilizou toda a mquina estatal a seu favor, como sempre fez o falecido ex-presidente Hugo Chvez, seu mentor. Houve capos de Maduro entrando com eleitores nas cabules para coagi-los, observadores independentes sendo expulsos dos centros de votao e, na ausncia deles, chavistas votando no lugar de cidados que j morreram. Maduro, porm, no tem o mesmo carisma do seu antecessor, que levou vrias eleies com folga. Mesmo repetindo todos os truques manjados do padrinho poltico, Maduro s conseguiu 50,78% dos votos. Ganhou raspando. O advogado Henrique Capriles, candidato da oposio, teve 48,95%. A diferena foi de 1,8%, o que representa menos de 300.000 votos. Para os que querem a Venezuela novamente na trilha democrtica, era para ser uma derrota com sabor de vitria: nunca, nos catorze anos de chavismo, a oposio recebeu tantos votos em uma eleio presidencial. Mas a conquista esvaiu-se quando Capriles, em vez de apontar para o fato de que tem no mnimo metade dos venezuelanos ao seu lado, atacou a lisura do processo eleitoral  uma atitude incua, pois a Justia do pas, inclusive a eleitoral,  subserviente aos interesses do chavismo. Com isso, Capriles perdeu a chance de tripudiar sobre a vitria prrica de Maduro e ainda deu ao adversrio a chance de responsabiliz-lo pela morte de sete cidados que participavam das manifestaes contra a fraude eleitoral. 
     O novo presidente venezuelano ter tempos duros at 2019, quando termina seu mandato. Chvez, com seus dotes populistas, manteve-se distante dos problemas que criou. As expropriaes de empresas e a excessiva ingerncia governamental, com controle quase total do cmbio, afetaram a produo, elevando a inflao para 30% neste ano. Quase metade das empresas privadas fechou as portas. Como no h investimentos, o pas sofre com sucessivos apages. A taxa de homicdios  a maior da Amrica Latina. Faltam papel higinico e frango nos supermercados. A maioria da populao, contudo, no enxergava o presidente como o responsvel pelos problemas. Impopular, Maduro no poder contar com esse aval cego. Ele tem duas sadas. A primeira  fortalecer o livre mercado, incentivar as companhias privadas e atrair investidores externos. Para um homem que fez cursos de filosofia marxista e economia poltica em Havana nos anos 1986 e 1987 e  considerado devoto da ditadura cubana, isso  improvvel. A segunda opo para manter-se no poder, obviamente ruim para o pas,  acelerar a transformao do governo chavista em uma ditadura plena, cercando-se de militares, reforando a opresso aos opositores e expandindo a presena do estado na economia. Na semana passada, deputados chavistas agrediram colegas da oposio na Assembleia Nacional. Um dos parlamentares opositores recebeu dezesseis pontos no rosto. Maduro j demonstrou que prefere o caminho da represso, pois disse que pretende "aprofundar a revoluo bolivariana". 
     Na quinta-feira passada, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) acatou o pedido de Capriles para realizar uma auditoria na contagem dos votos. Os nmeros dificilmente sero corrigidos, porque, como foi dito acima, na Venezuela o embuste acontece antes da apurao. Por exemplo, quando um eleitor opta por Maduro porque tem um chefe chavista plantado ao lado da urna e teme perder o emprego pblico. "O abuso pr-eleitoral  muito mais poderoso do que eventuais trapaas na contagem", diz o cientista poltico Lus Vicente Len, presidente do instituto de pesquisas Datanlisis, em Caracas. Sem poder contar com a comunidade internacional para pressionar por respeito  vontade de pelo menos metade da populao  o Brasil e outros pases vizinhos deram de ombros para a fraude nas urnas , restar  oposio o trabalho de resistir a um regime cada vez mais fraco, porm violento. 

COMO MADURO GANHOU A ELEIO
Algumas das irregularidades cometidas pelos chavistas.
1,5 milho de eleitores votaram com um chavista a tiracolo.
421 centros de votao tiveram governistas distribuindo panfletos no dia da eleio.
286 observadores da oposio foram expulsos das zonas eleitorais a tiros ou a pancadas.


